sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ai, pai!


Meu pai é hipertenso. Desde nova, eu como comida com pouco sal por causa dele. Não é à toa que tenho pressão baixa. Mas, ele nunca se cuidou, sabe? Sempre foi largado. Comia gordura, alimentos oleosos, e afins. Sempre relapso com a saúde. Uma certa vez, quando eu estava na Bahia em férias tardias da UnB (depois de longo período de greve), em casa, tranquilíssima com meus pais em uma manhã do dia 17/09/2010, levantei cedo, diferentemente do que acontecia. Acordei 09h30. Era uma sexta-feira, lembro-me como se fosse hoje. No dia anterior, meu pai havia passado mal com pressão altíssima, foi trabalhar, mas voltara cedo, exatamente por isso. Já me preocupei desde então. E acordei cedo, ou melhor, levantei-me cedo exatamente por isso - não conseguira dormir direito na noite anterior de preocupação. Quando desci as escadas, fui ao seu encontro na sala. Ele estava vendo TV, e eu disse a ele: tá melhor? E ele apenas assentiu com a cabeça. Em seguida, meu irmão apareceu dizendo: Pai, daqui a pouco vou tirar sua graça e colocar um som aí, porque tô lavando o carro.

E ele: não mesmo, vou ver meu dvd do David Gilmour (meu pai é apaixonado por Pink Floyd, e tem vários dvds da banda, além do David e do Roger separadamente). Aí, eu me intrometi dizendo: Negativo, nenhum dos dois vai ver nada aqui. Eu vou ver um filme que vai passar hoje, que eu nunca vi, e tenho vontade de ver (Xeque Mate, tanto é, que toda vez que vejo esse filme, lembro do acontecimento). Aí meu pai balançou com a cabeça com cara de "tsc, Carol". E eu acrescentei: e você vai ver comigo. Ele acabou por não dizer nada, no final das contas, meu pai acaba fazendo tudo o que eu quero. Em seguida, chamei-o para ir à cozinha comigo, para eu tomar café e me fazer companhia (como de praxe). Ao chegarmos lá, enquanto eu pegava minha caneca e o Leite Ninho, ele sentado à messa, respirou tão forte, tão ofegante, que eu olhei pra ele. Ele estava vermelho. Imediatamente, minha mãe chamou meu irmão, e ambos foram ao hospital. Desisti logo de tomar café, esperando os dois voltarem. Ao voltarem, meu irmão disse que tinham passado na farmácia, e a pressão dele estava altíssima.
Não lembro ao certo quanto, mas creio que era 25.19, algo do tipo. E que meu pai deveria, de fato, ir ao hospital. Como recomendado. Mas, filha de peixe, peixinha é! Meu pai é teimoso, deveras teimoso, e disse que estava bem. Meu irmão e eu ainda perguntamos para ratificar, e ele disse que sim. Fiquei tão desnorteada na hora, que nem ânimo de comer mais, eu tive. Apenas disse: já volto, tá? Vou efetivar minha matrícula desse semestre (matrícula web da UnB sucks! rs) e volto para vermos o filme. Ele não disse, mas eu subi. Assim que confirmei minha matrícula, ouvi minha mãe gritando "Carolliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiina!". Bom, sobre essa semana, não digo nada com propriedade. O choque foi tão grande, que quando eu vi, já tinha saído do segundo e estava no primeiro andar. Algumas pessoas, ao verem certas cenas, mostram-se ágeis, úteis, e socorrem. Outras se desesperam, começam a chorar, a gritar. E eu? Bom, eu fui da "classe" dos estagnados. Não tive reação alguma! Apenas vi o meu pai jogado/deitado na mesa da cozinha. Morto, praticamente! Minha mãe percebeu meu olhar parado.
Minha atitude parada. E me deu um sacode: vai chamar seu irmão agora! E eu fui correndo, quando abri a porta da garagem, nem precisei dizer nada, meu irmão viu a minha expressão. Entrou correndo. Resultado: vi o meu pai saindo carregado de casa pelo meu irmão e pela minha mãe. E ao chegar do lado de fora, ajudados por um de meus vizinhos. Vi meu pai entrar no carro, nesse estado. Vermelho, com a língua pra fora, sem andar, sem falar. Com os olhos virados. Foi isso que eu vi, e apenas isso. E, sabe aqueles barulhinhos de carro que arrasta, assim como em filme? Então. Lembro desse som perfeitamente nítido até hoje. Depois que o carro dobrou a esquina com toda a velocidade, com meu pai, minha mãe e meu irmão neles, eu entrei e debrucei-me na escada. Chorando de cabeça baixa. E chorava. Chorava, chorava, chorava. E quando penso que não, chorava mais. A situação em si não tivera caído, mas eu sabia que meu não estava bem. Não sei quanto tempo fiquei ali debruçada chorando, mas sei que uma tia minha chegou em seguida dizendo: Carol, já liguei pra uma de suas amigas.
Ela disse que ligaria para os demais, para ficarem comigo, né? Duas amigas nem foram pra faculdade. Uma delas, estava na faculdade e voltou assim que soube. E os meninos, de modo geral - como sempre - ficaram comigo. Passei o dia inteiro com eles em casa, deitada no sofá chorando. E só chorei. Não comi na-da o dia inteiro. Nesse dia, eu descobri que uma pessoa consegue passar um dia sem comer. E mais, sabe o que mais me deixava desesperada? Eu ligar no celular do meu irmão e da minha mãe e nenhum dos dois me atenderem! Uma hora, minha mãe até voltou em casa para pegar roupas e ir direto pro hospital (um amigo dela estava esperando-a arrumar suas coisas para voltar para o hospital). E eu perguntando: e o meu pai? E o meu pai? E ela? Não dizia nada, apenas: calma, eu logo volto. Mas, porra, não era isso que eu queria saber! Queria saber só como ele estava, sabe? Se respirava, se falava, se estava melhor. Só isso. Mas não obtive notícias. Vi o meu pai sair de casa naquele estado, e fiquei até às 22h sem notícia alguma. Detalhe, essa situação occoreu por volta das 10h.
Aí, uma das minhas amigas começou a ficar preocupada, né? Porque eu fiquei o dia inteiro sem comer absolutamente nada. Aí ligou pro meu irmão. Dessa vez, ele atendeu. E ela disse: Jr, que horas você vem? Porque sua irmã é criança o suficiente pra não querer comer e nem se cuidar. E ele falou algo com ela, que eu não sei. Mas, logo em seguida, ela passou o telefone pra mim. E ele disse: tô chegando em casa, e você vai comer, porque de doente agora, já basta meu pai. E eu chorando disse: ele tá melhor? E o meu irmão: tá. Quando eu chegar em casa, te conto tudo. (Tô chorando tanto agora, só de lembrar de tudo isso, você não tem ideia) Enfim, quando meu irmão chegou em casa, eu fiquei tão angustiada, que chorei mais. Minha amiga que estava comigo ainda desde cedo, foi embora em seguida, já estava tarde. Aí subimos. Lá em casa (é algo até engraçado), cada um se expressa de um jeito quando fica nervoso. Meu irmão, por exemplo, tem crise de tosse. Não sabia se ele tossia mais ou falava. No final das contas, ele disse +- que meu pai estava em um quadro mais estável.
E que ele teve (waiting for it) quatro infartos. Isso mesmo que você leu, quatro infartos. Eu chorava tanto, tanto. Como uma pessoa teve quatro infartos? (Se você quiser, te falo depois dos infartos) Anyway, sabe o que foi "bom" (se é que posso chamar assim) com tudo isso? A aproximação que meu irmão e eu tivemos. Meu irmão me esperou tomar banho, desceu comigo, e fez lanche pra gente. Comemos, conversamos e fomos dormir. Dormir não, porque ninguém tinha cabeça pra dormir nesse dia. Mas, deitamos. E no dia seguinte, eu sabia que poderia visitar meu pai no hospital. No caminho de ida, meu irmão me fez toda uma preparação psicológica. Comentou sobre o fato do médico ter dito que meu pai passou por um quadro complicado, e que estava em repouso e que não poderia se estressar, se irritar, se preocupar e nem se emocionar. E no meu caso: se emocionar. Agora, imagine: canceriana e emotiva, como eu, como não se emocionar? Mas, ok. Fui me preparando, fui abstraindo aquilo, e pedindo a Deus no meio do caminho: Senhor, dai-me forças, não me deixe chorar.
(E eu, agora, chorando igual criança digitando isso) Quando eu entrei no quarto, e vi o meu pai de olho aberto. Ca-ra-lho! Eu não aguentei, saí do quarto correndo, e meu irmão veio atrás. Eu estava aos prontos. Meu irmão, de gracinha como sempre, deu um tapa de leve no meu ombro e disse: vira homem, rapaz! E me esperou um pouco, e eu acalmei. Entrei novamente. Vi meu pai. Foi o maior presente que eu já ganhei até hoje. Meu pai de olho aberto de novo. Sabe o que é isso? Sabe o que é ver o amor da sua vida vivo? De olhinho aberto? Foi uma dádiva. Ainda é! Eu só consegui encostar e dar um beijo na testa dele. E disse com a voz falhada: oi, pai. E ele piscou o olho pra mim. Lindo! Como sempre lindo! Se fiquei muito lá, foram 5 minutos. Não conseguia não chorar, e logo em seguida, saí do quarto. Minha mãe foi atrás de mim em seguida, e disse: você sabe que não pode mais voltar amanhã, né? E eu disse: não, mãe, desculpa. Eu juro que amanhã não choro, tá? Juro mesmo. É que hoje, eu não segurei. E ela disse: não, Carol, é porque quando seu pai te viu, ele chorou. E eu: chorou?
E ela: chorou. Comigo e com Júnior não. E eu: tadinho do meu papai. E ok, não pude visitá-lo. Fiquei com o coração na mão, sabe? Não poderia ver meu pai. Fora que, no mesmo dia, à noite, quando liguei para saber de notícias dele, minha mãe disse que ela e minha mãe alternariam para dormirem no hospital. E eu me prontifiquei, claro, para ajudá-los. E minha mãe me dissera que meu pai não queria que eu fosse, porque sabia que eu era frágil e não daria conta, fora que ele não estava preparado para me ver. CARA, COMO ASSIM? Ele quem tinha passado por um problemão, e a frágil era eu? Como? Quando? Onde? Pqp, por que ele é perfeito? Não entendo. Mas, enfim, não fui. Nesse dia, sábado à noite, dia 18/09/2010, passei o dia inteiro para os meus amigos. E esqueci de dizer: lembro que fui na rua à tarde para comprar um pijama bonito pra ele usar no hospital e dar de presente. Ficou bonito nele, inclusive. Assim como tudo que ele usa e faz. Passei o dia inteiro com cólica. Minha menstruação tinha ido embora uns 4 dias antes, e voltou depois com isso. Mexeu pra caramba com meu psicológico.
Nesse mesmo dia, à noite, os meninos estavam comigo jogando banco imobiliário, depois dominó. Fizeram mil gracinhas pra eu rir. Confesso que até ria, mas instantaneamente, piorava e chorava. Chorava de alegria por ver meu pai vivo, mas pela cena em si. Fora a preocupação, né? Meu pai estava internado ainda. Resultado: tomei muitos remédios para a cólica passar, e na-da. Pelo contrário: piorava. Nesse dia, eu desmaiei duas vezes seguidas, meus amigos já tinham ido embora. Meu irmão quem me socorrou. Meu pai, na segunda, fez um cateterismo, e ficou mais uns dias no hospital. Quando ele voltou pra casa, foi alegria. Eu disse pra ele que ele tinha renascido.
Já tive muitos momentos na minha vida. Alegres, tristes. Mas, digo no sentido de intensidade, consegue me entender? E nenhum deles é comparado a esse. Meu pai compôs o pior e o melhor dia da minha vida.

domingo, 19 de agosto de 2012

Enfim, é o fim.


Nesse fim de tarde ou início de noite (ainda não sei muito definir o horário das 18, confesso), eu penso que deveria falar de medo. E não necessariamente de medo, mas dos meus medos, sabe? Medo da morte, medo da perda. E fazendo essa junção, medo da morte de alguém que eu gosto. Porque se morre, quem perde sou eu.
Nunca tive medo de morrer. Engraçado, não é mesmo? Engraçado, esquisito, irônico e atípico. A sociedade vive para reclamar, reclama pra viver. Mas vive! As religiões são tão preponderantes, são tão fixas e estimulantes na sociedade como um todo, não pela propagação da fé, ou do amor em Cristo. E sim pelo medo da morte. ÉÉÉÉÉ! As pessoas têm medo de morrer. E não só da morte, mas das consequências da morte: céu e inferno, purgatório, sofrimento, tridente, chamas, reavivamento, paraíso. Essa luta incessante pela divisão de águas (sou péssima em metáforas, e nunca sei se as uso de forma correta). Bom, vocês entenderam. É a busca pela vida, desapego da morte. Se é que posso chamar de desapego. Não sei.
Falar de morte até assusta. Eu mesma, agora, estou me arrepiando um pouco, porque incrivelmente comum, meus pensamentos vão além da minha escrita e aquém da minha possibilidade de explicitá-los em um simples texto. E como simples, creio eu, não posso esbanjar palavras e nem criar polêmicas. Porque viver é difícil, mas a morte é tão mais fácil. Viver é complicado, machuca, é penoso. Morrer é tão objetivo, real, adequado. Morrer é adequado! Mas, viver também é. Porque viver é uma dádiva. Não que a morte não seja, só não é tão reconhecida.
Afinal de contas, é fácil falarmos sobre a importância de outrem em sua morte. É fácil dizermos que amamos alguém e que sentiremos falta desse alguém quando esse alguém morre. Mas, por que nos assusta tanto falar isso em vida? Porque sabemos que a morte é simples, que a morte é direta, e tememos por isso. Acho até que intrínseca (e ironicamente) sentimos inveja dos mortos! E não se assuste com isso que eu falei, apenas acompanhe meu momento de devaneio. Sentimos inveja dos mortos porque eles já passaram por suas possíveis turbulências e agora descansam. Ou, o vulgo: descansam em paz.
Pra gente é tudo tão angustiante, difícil, polêmico que muitas vezes precisamos apenas de paz. O problema dessa busca incessante pela paz é que acabamos descontando isso em quem não deveria receber: nosso irmão – olha eu apelando pro clichê! Tudo bem, mudarei a expressão, acabamos por descontar essa revolta na pessoa do nosso lado. Aí, começamos com aquela história de: “fulano me irrita”. “Cicrano é falso”. “Beltrano é um porre e forçado”. “Você viu o que ela fez? Que ridícula, finge ser o que não é”. “Só faço rir como ele consegue me surpreender sendo tão trouxa, deveria ser menos imbecil”. É como eu disse, vivemos pra reclamar. Mas, reclamamos dos outros! Porque eu? “Eu sou a dona da verdade”, “não é que eu não tenha defeitos, mas eu não sou assim”, “Fala sério, sei que eu não sou flor que se cheire, mas duvido muito que eu seja assim, você sabe que eu não sou”. E o mais engraçado: tiramos o nosso da reta e comprometemos um amigo, e ai dele se falar que eu (ou você) tem defeito!
Somos estranhamente esquisitos, que muitas vezes levantamos nossos defeitos, mas se alguém comenta é motivo de briga. Porque o defeito do outro é sempre pior que o nosso. E, talvez, o outro apenas tenha o mesmo defeito que o nosso, mas somos tão cegos e hipócritas que sentimos dificuldade até mesmo de reconhecer nossos erros. Acentuamos com tanta clareza as falhas de alguém, que perdemos o foco do que realmente é foco: eu.  Porque hoje, o dia é meu. Sou eu. É D(eu)s. Mas, qual foi a causa do começo de tudo isso, hein?
Ahhhh, a morte! A morte pela que eu, você, ele, ela e até aquele alguém que comentamos mais acima morre de medo. Porque morrer é simples, e nós gostamos de complicações. E eu poderia, como de praxe, sentar ao lado de Zé e perguntar o que ele acha, mas eu conheço Zé! Sei bem como ele pensa – ele tem sido meu psicólogo sem diploma, e pelo que sei de Zé, ele só me olharia (com aquelas bermudas largadas que ele costuma usar, e aquela camisa branca – Zé é cheio delas – com sua sandália surrada de barro), e falaria: É, menina. Já dizia em um filme muito bom e conhecido que basta estar vivo para morrer.
Porque Zé é simples, e como eu, Zé não teme a morte. Mas, diferentemente de mim, Zé é realista com a vida. E reconhece que somos errados, que somos complicados, que somos hipócritas, que somos egoístas, que somos donos da verdade, que temos um rei na barriga. E aí, você poderia me indagar: mas, por que você enaltece tanto Zé? Por que você fala assim dele, sendo que ele se inclui no “nós”? Bom, aí então, eu apenas te responderia: Zé não tem medo, Zé é sensato, Zé é simples. Assim como a morte. Adequado, preciso, verdadeiro.
E, agora, não sei se temo mais a morte. Porque, como Zé me parafraseou: basta estar vivo para morrer. Ao menos, verei que outrem alcançou a busca incessante da humanidade: o descansar em paz. E assim, de um a um, pararíamos de culpar fulano, cicrano ou beltrano por nossos próprios erros e fraquezas. E aprenderíamos, talvez, a reconhecer as possíveis qualidades de alguém, ao invés de simplesmente incriminá-los pelos seus (sobretudo, nossos) próprios erros.
Mas, chega de devaneios, hoje, acho que atingi meu ápice. Ainda estamos no fim de tarde, ou início de noite – maldita 18h que me confunde! – e, eu irei tomar um banho. Esquentar a cabeça, sabe? Tentar “dar uma” de Zé. Ser mais simples, mais direto, mais adequado. Menos complicada. Lavar a cabeça, sentir mais a água, ao invés de só problema. Pensar na qualidade e no encanto de alguém, sem julgá-lo pelos seus atos.
Refletindo que, a partir daí, eu sozinha não mudo o mundo. Mas, quem sabe o m(eu) mundo tome um rumo!? Já são quase 19h, agora eu sei que estamos em início de noite. Então, tenha sua noite como boa também. E não! Eu não te julgarei e nem me utilizarei de palavras ofensivas. Porque “bom dia” não faz mal, “como você está?” é uma pergunta rara e que chama atenção hoje em dia, e que elogios e preocupação tornaram-se escassos na humanidade. E como humanos que somos, precisamos mais disso, se é que você me entende. Então, boa noite. E lembre-se: ao apontar um dedo pra alguém, note que outros três dedos, dessa mão, voltam para ti. Julgue menos, viva mais. Mas viva! E não toma a morte. Quando ela chegar, será simples. E, meu caro, você e eu somos tudo, menos simples.
Dê uma flor, coma com alguém (e se convir, coma alguém também, metaforicamente, é claro), abrace! Todos esses clichês necessários da vida. E, pra não ficar maçante e antipático, como meus devaneios do dia-a-dia, sente-se agora para ver TV. Note o caos, seja o caos. Contradiga, mas não humilhe e nem se sinta superior. Não se torne. Seu D(eus) já busca isso, faça a diferença para si. Porque assim, quem sabe, você faça isso por mim também.

sábado, 28 de julho de 2012

"Escrevo, pois..."

"Escrevo, pois..." e não sei o que escrever.
Mexi no cabelo várias vezes. Mudei de lado, passei os dedos devagar nos fios. Preciso apará-los.
Mas, vejamos, por que escrevo? Escrevo pois... e empaco. Travo, não saio. Estagno, permaneço. Pronto, agora foi que vi! Ou deixei de ver.
Sem mais delongas, escrevo, pois, escrever é arte. É como pintar um quadro, ou compor uma obra. Obra-prima. É como sentir o vento passar na direção contrária ao seu cabelo e te bagunçar.
E mais, escrevo, pois, já é tarde. E as minhas companhias são agradabilíssimas e requerem meus cuidados, meus papos furados, e minhas reclamações. E escrevo, como aqui agora.
Caro, leitor, não me julgue e nem reclame, apenas leia. Dê-me um pouco de seu tempo, pois, escrevo. E se escrevo é porque preciso expor algo. A questão é que ainda não achei palavras certas para explanar minha angústia de palavras. Ou minhas palavras de angústia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pipoca doce.

Como de costume, naquela terça-feira, por volta das 17h, eu caminhava pelo parque grande da cidade. Ele tinha uma pista enorme, e ao seu redor, sempre via grandes árvores. Via verde! E gostava. Mas, naquela terça específica, lembro-me como se fosse hoje, o tempo não estava como de costume. Estava meio úmido (se é que nesse caso tem meio termo). Até abaixei a cabeça para olhar a grama, verde é claro. E meu nariz escorreu. Pura água, não estava gripada aquele dia. Lembrei de choro, e me arrepiei. Não sabia o que estava acontecendo, saí dali às pressas - sorte minha que estava de tênis, se não, a corrida seria deveras cansativa. Corria tanto, mas tanto, que parava por uns dezoito segundos e olhava pra frente. Fungava com força! Mas a sensação de infinito que me causava aquela estrada do parque, só me dava maior vontade de correr. Uma sensação de angústia, após a fungada. E um prazer causado pela corrida (hormônio é um bicho complicado!). E então, parei. Estava tomada pela apreensão, e buscava respostas. Foi então, que lembre-me de Zé. 
[...]
Fui até aquele banquinho que ele costumava se sentar toda tarde. E lá estava Zé! Claro. Com um chinelo cheio de barro seco, uma bermuda branca largada, e uma blusa azul na mão esquerda. Olhava para a árvore, ao lado do banquinho. Uma menina e sua mãe andavam ali perto no momento, com pipoca doce nas mãos. Aquela cena me chamou tanto a atenção que eu fiquei por um instante parada ali - apenas olhando. Mas, lembrei-me de meu propósito: estava agoniada! E quanto mais me aproximava de Zé, sentia que tudo aquilo seria explicado, mas meus poros abertos, deixavam-me com os pelos espetados! Malditos arrepios que me tomam, pensei.
Foi então que, finalmente, sem mais rodeios, encostei. Zé só levantou a cabeça, nem acenou, nem assentiu, nem falou. Apenas colocou a mão no queixo, e se dobrou um pouco. Sentei-me ao seu lado. Ficamos calados por uns dois minutos, eu creio, mas não me aguentei:
- É, Zé. Tenho te procurado bastante nos últimos dias.
- Qual o problema dessa vez?
- Uma dor.
- Como?
- Uma angústia, não sei.
- Dor ou angústia?
- Dor. Não, angústia. Não! Arrepios. Com apreensões.
Acho que nesse momento, ele ficou bravo, olhou-me com uma aparência péssima! Mas, Zé, mesmo que com aparência áspera, sempre se mostrava muito receptivo (acho que eram as bermudas largas que sempre o via usando). E continuou:
- Dor, angústia, arrepios, apreensões. Plural e singular com sentimentos consecutivos. O grau de relevância varia de acordo com o grau de concordância, moça?
Fiz bico. Não entendia o que Zé pensava, e nem vi tanto sentido, a priori. Olhei para a árvore - aquela que Zé olhara quando cheguei. E enxerguei que precisava de foco, de resposta, e respondi:
- Zé, eu que preciso de respostas, me ajude! O que é isso?
- Como essas sensações te tomaram por inteira?
- Eu caminhava pelo parque, esse costume que tenho por volta do fim de tarde, você sabe. E ao abaixar a cabeça, gotículas de água pingavam de meu nariz. Mas, nem resfriada eu estou.
- Foi? E em seguida?
- Pensei em lágrimas.
- Compreendo. E agora? No que pensas?
- Minha casa.
- E o que mais?
E parei. E agora, quem estava com a mão no queixo não era mais Zé, era eu. E olhei minha sapatilha bege com detalhe de borboleta no canto do pé esquerdo (bem próximo ao dedo mindinho, só que do lado de fora, nesse caso). Em seguida, olhei pro Zé, e ele me olhava dessa vez. Sem árvores, sem mão no queixo, sem foco na camisa azul. Ele apenas me olhava. Minha boca se mexeu involuntariamente, com um ar de triste. E falei:
-  Aconchego, Zé. Amigos (e todos eles surgiram em minha cabeça), meus pais...
E fui interrompida:
- Caso solucionado!
E eu sem entender:
- Como assim, Zé?
- O que sentes agora, moça?
- Saudade.
- Eis a combinação de todas suas sensações.
E sorri, apenas sorri. Zé era compreensível, mas ainda era áspero - não gostava de contato físico. Exatamente por isso, apenas sorri. E levantei-me. Fui andando para casa, que não era a minha da qual sentia falta. E nesses pensamentos que minha cabeça corria, falei bem baixinho:
- Saudade da pipoca doce do meu pai.
#contocombemaisde100letras

segunda-feira, 23 de julho de 2012

01:01 a.m.

Já era tarde, eu sabia. Olhei o relógio e vi: 01:01. Não que horários iguais me encantem os olhos, mas é automático, pensei: alguém está pensando em mim.
Mas, logo em seguida, outra parte de meus pensamentos respondeu: Será mesmo que alguém pensaria em ti?
Fiquei um tempo parada, e minha ação conseguinte foi olhar o relógio mais uma vez. Já eram 01:04. Meu pensamento deu tantas voltas, e poucos minutos se passaram.
Você deve está pensando, então, no que eu pensei. Ou, talvez, por onde meus pensamentos andaram. E eu não sabia te dizer. Discorrer seria impossível: pensamentos rápidos, além da minha formação de palavras. E, claro, minhas palavras aquém do processo efêmero dos meus pensamentos.
Agora, por exemplo, estou olhando minhas unhas. Há uma falha em uma delas, desnivelando aquilo que eu considerava perfeito. Esvaiu-se a sintonia, compreende?
Mas, melhor parar. A quem quero enganar? Pra onde quero fugir? Estou com medo de não ter ninguém pensando em mim. Ou melhor: estou com medo de ficar sozinha. Ou seria pior?
Na realidade, preciso te dizer, meu maior medo é de ter alguém. De dar certo com alguém. Sou esquisita, sou atípica - tenho medo da felicidade! E não por ser feliz, mas por, talvez, não saber como horas iguais, clichê, senso comum e todas as banalidades que vivemos e convivemos possam entrelaçar-se e viver no amor e na felicidade.
É isso! Mas, agora, não adianta-me mais nada, peguei o celular e olhei, 01:11. Está na hora de dormir.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Meias e relógio.

Sentada naquele passeio de esquina com pontas amareladas, ela estava. Com suas meias coloridas (ela a-do-ra-va!). Balançou seus pés umas duas vezes, acho que por estar apreensiva por algum motivo (desculpe, ela não quis me dizer o que era). Passou um moço, e ela perguntou: hey, que horas você tem aí?
Ele olhou no relógio. Olhou para ela, mas suas meias eram tão chamativas que ele se perdeu em seus pensamentos e perguntou-lhe: desculpe, o que você me perguntou mesmo?
E ela meio impaciente repetiu: eu perguntei que horas você tem aí!
Ele enrugou as sobrancelhas, olhou seu relógio mais uma vez e disse: oito para mais tarde.
Ela, por sua vez, enrugou a face inteira, curvou o rosto e retrucou: o quê? Não entendi muito bem o que o senhor quis dizer. O senhor sabe olhar as horas?
Ele deu uma gargalhada meio baixa (sabe aquela vontade de rir alto?) e disse: eu entendi, você perguntou que horas eu tenho AQUI, em mim, e eu disse - oito para mais tarde. Faltam oito minutos para algo que eu tinha que fazer mais tarde, mas se você continuar me atrasando, não sei quantos minutos restarão até lá.
Ela ficou com os olhos arregalados, agradeceu-lhe e em seguida, levantou-se do passeio (é, aquele das pontas amareladas), foi andando no asfalto solitário. Com o passar de uns instantes (não sei a precisão da hora, isso ela também não me disse), deu de ombros e falou alto para consigo mesma (penso até que ela quis uma afirmação nesse momento): é, talvez, agora, já sejam três. Três para o meu mais tarde. Mais tarde. Mais! Tarde.

Abacates maduros.

Li um dia desses uma crônica do meu chefe. Com uma linguagem bem formal. Aguçada. Pontuada. Detalhada. Mas com uma história de simplicidade singular. Aquele tipo de enredo que você olha e desde cedo pensa: isso me surpreenderá. Ou, surpreender-me-á (atente-se à escrita formal, menina). Fiquei pensando em D. Maria. É, a velhinha da crônica do meu chefe. Ela me comoveu. Queria apenas uns abacates - da promessa que meu chefe fizera a ela. Sabendo ele que não eram os abacates que tinham valor, mas sim, a recordação (que ele não tivera, inclusive) de enviar-lhe alguns "bocados" para suprir, talvez, sua necessidade - diziam que naquela época, abacate era como "ouro". Tolinhos. Vê se o material é tão valioso quanto a lembrança!? E quando não se lembra? Se sente. Sente-se. Mas, para isso, eu deveria me sentar. Sentar ou sentir? Sinto sentada. Porque falar de sentimento, meu caro, levaria horas. Alguém como eu falando de outrem é sinônimo de detalhes. Meu menino é de detalhes. Sabe aquela vitória-régia jogada em um lago qualquer, com musgos e falta de limpeza constante? Mas que apresenta uma violeta bem perto, decerto, que se destaca? Ou, quem sabe, aquela gotícula que escorre pela folha bem verdinha no fim de uma chuva? E, quem sabe talvez, aquela pilhas de cd's organizados em ordem alfabética mas que, por descuido do responsável, um único se apresenta torto? Então, o meu menino é desse jeito. Ele tem uma leveza em sua fala. Um jeito manso de me conduzir. Lembro de Chico cantando "(...) eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz". Como eu queria cantar isso para o meu menino. Menino. Meu. É, meu!
[...]
Mas, de que diabos eu estava falando mesmo? Sim, de D. Maria. Ao, menos, deveria ser dela. Meu menino não queria abacates - e se quisesse, eu não saberia. Ele queria confirmações. Certezas. Disciplinar-se em línguas. Verde, branco e vermelho. Verde, amarelo, azul e branco. Mas que danada de mistura é essa? Não sei. Ele é assim. Quem sabe até ele quisesse apenas tomar posse do que fora dele. E que continuasse sendo, mas que por alguma razão, ele pensou que houvesse se esvaído. Imagine só que (pausa - estou em risos contidos) ele tivesse um leve relapso ao dizer que alguém fosse dele. E fosse! Ou melhor, e é. Presente, por favor. Tanto quanto a sintaxe quanto o literal. O que é seu não há mudança. Mesmo que haja um casamento contra sua vontade.
E ao se tratar de casamentos, já não lembro mais de D. Maria. Lembro de mim. E sempre me vem um vestido tomara-que-caia que realce meus seios, um salto fino de brilho único, e uma maquiagem radiante. Estaria eu, talvez, com um buquê mais lindo ainda. Não tão lindo quanto quem me esperasse do outro lado, lá no altar. Buquê me lembrou janela, janela lembrou meu menino.
Ele não me olha na janela. Isso soa um tanto quanto esquisito. Eu que estou a olhar, agora, lá fora. A janela em seu formado bonito, com cores acinzentadas (gosto de cinza, inclusive), e seus traços que não permitem um acesso livre. Estou bloqueada. Presa em minha própria liberdade!
E não posso mesmo ser livre. Ele me pegou! Ele nem sabe a representação contrária de livre e preso que causa em mim, mas causa. Sempre causou. Desde seu início com jeito esquisito e autista de ser. Sua implicância. Suas saídas à escola de noite. Noite. E eu toco, e eu sinto. E eu disse que sentaria, não é? E me toco outra vez. Porque queria senti-lo, tocá-lo. Tê-lo.
Ai, meu menino. Mal sabia você que o tempo inteiro, não era o meu menino. Eu quem era a menina dele.

Time, time, time.



A gente sempre acha que, por algum motivo, sentimento tem que tá atrelado a tempo. "Olha, eu amo fulano. Estamos juntos há três anos". Ou então: "Ah, minha vida é sicrano. Há dois anos e sete meses que não nos desgrudamos. E tem essa também, que eu achei lendária quando ouvi: sou louca por ele, depois que você supera os sete primeiros meses, tudo vira flores.
É estranho pensarmos que sentimento se associe diretamente ao tempo. Pra mim, isso se tornou um pouco diferente. Sentimento é aqui, é a circunstância, é a intensidade, é a afinidade, é "o jeito" (tem gente que tem, é incrível), é "o dom". E não tem essa de: "tem gente que não nasceu pra gostar/adorar/amar". Todo mundo nasceu pra isso! Mas também, pra odiar, detestar, encabular, mentir, omitir, implicar. E, até mesmo, para os dois. Sem perder o foco, ainda acho que tempo e sentimento não são diretamente interligados. Digamos que o tempo é um tempero do sentimento. E isso de forma proporcional e/ou desproporcional. Aí, meu caro, não é mais questão nem de tempo e nem de sentimento, e sim do advérbio. É! Ou da locução adverbial, você quem decide. O que entra em questão agora é a circunstância. E, ao meu ver, ela é fundamental.
Tá na moda agora dizer que se banalizou o amor. Engraçado, é que tem nego que ainda diz: tem gente que te conhece agora, cinco minutos depois tá te amando. Mas, há também quem diga: ele/ela demorou tanto de dizer que me amava. Já percebeu, não é? Nunca estamos satisfeitos.
Fico um pouco confusa com as necessidades humanas. Suas percepções, seus desejos, seus almejos, seus objetivos. No que diz respeitos aos sentimentos, é claro!
Tenho dificuldade com as palavrinhas mágicas (eu _ _ _ você). E sem aquela coisa de "permitir a participação do eu-lírico de forma indireta" - aqui tá mais do que direta. E não só com elas! Tenho dificuldade em definir sentimentos, sensações. E tudo isso por causa de outras sensações (complexo, eu sei). Insegurança, medo. Ih, devaneei! Sabe como é, né? Essa coisa de sentimento é complicada. Lembrei da Tati Bernardi agora ao falar que "amor não se pede, amor se declara". E como ele já sabe disso - e, por favor! sem pânico - estou aqui para declarar. Desejar. Gostar. E, quem sabe um dia, amar. E aí, são só os "-ar". Quero mais é viver, transcender, sorrir, sentir. Você. Eu. Nós.

Me and myself.

Diálogo de mim com mim mesma:
- Como eu posso dizer pra ela o tanto que ela é especial?
- Você falou ela duas vezes numa mesma frase, curta.
- Eu sei, mas é porque ela é importante pra mim.
- Não seria melhor você falar "por sua importância"?
- Minha?
- Não, dela.
- Ué, mas aí, do mesmo jeito teria ela.
- Onde?
- Dela.
- Mas diferencia.
- Não, é a mesma coisa, apenas com outro suporte.
- Ok, você tá me confundindo. De quem estamos falando?
- Dela!
- Isso porque, você reclamou do meu "dela" (susurrando). Mas, quem diabos é ela?
- Ah, uma grande pessoa.
- Seja mais clara.
- Uma enorme pessoa.
- Ok, você está me confundindo de novo. Fala de forma metafórica ou literal?
- Metafórica, oras. Uma grande pessoa literalmente seria grande para que referencial?
- Você não é lá grandes parâmetros de altura. (risos)
- Fica na tua! Você e eu somos a mesma pessoa.
- (Boquiaberta) E por que diabos você sabe de quem está falando e eu não sei?
- Porque você não está pensando como eu estou pensando.
- Agora, eu tô entendendo.
- Mas, eu não. Quem está falando agora? Nessa exata frase. Eu ou eu mesma?
- Somos a mesma, você quem disse.
- Eu sei, mas me perdi. Esse devaneio... interrupção.
- Seja mais clara, quem é ela?
- Verdade! Tem ela. O que mesmo você quer saber dela?
- Quem ela é, por que admiras tanto ela?
- E você tinha reclamando de eu ter utilizado ela duas vezes numa mesma frase, curta.
- Sem delongas, me diz, quem é ela?
- Diz-me é o correto, (susurrando mais uma vez). Ela é ela, oras.
- E pela segunda vez, você conseguiu utilizar ela seguidamente. reclamação com canto de boca
- Ela é inexplicável. É uma terceira pessoa do caso reto que participa do primeiro caso, do eu.
- De você?
- De mim, de mim mesma.
- De nós! Entendi. De fato, ela e eu ou ela e eu mesma somos ligadas. Ou são?
- São e somos. Terceira e primeira pessoa, nesse caso, se misturam.