Sentei num banquinho dali. Não lembro muito bem os detalhes da rua, se não, diria agora mesmo. Sei que o menino passava sempre por aquela rua, e era sempre esse horário: 16h30. Não com tanta precisão. Hoje mesmo, ele passou às 16h33. Certeza que é algum compromisso. Pensei que era academia, mas ele não iria malhar assim - tão arrumado. Não gosto de metrossexuais, e bom, gosto dele.
(...)
Oh não. Não. Nããããão! Ele está chegando. E agora? E agora? Ok, ele sentou no banco. Calma, respira.
- Boa tarde.
Apenas assenti. Não conseguia falar. E agora? Socorro, fale algo. Fale, fale, aproveite.
- Seu cadarço está desamarrado.
- É.
É? Você só fala isso? Ai, garota. Você me decepciona.
- Posso amarrá-los?
Arregalei os olhos. Ele está se abaixando, curvando-se. É ele? E está tão cheiroso. Ele amarrou mesmo. Qual o problema dele? Estou delirando? Estou com febre?
- Desculpa, é que estou abafado. Sufocado, sabe? Não falo com quem não conheço, mas...
- Veio por estar sufocado?
- Acho que sim.
- E falar comigo adiantaria?
- Acho que sim.
- Só sabe falar isso?
- Não.
E começou a rir. Consegui fazê-lo rir mesmo? E com essa camisa branca... acaba comigo.
- E então, qual o seu nome?
- Não falo com quem não conheço.
Agora, eu quem ri. Ele também, de novo. Achou graça na minha graça. Mas, a graça era mesmo dele. Ele quem não sabia.
- Está quente, não?
- Acho que sim.
- Só sabe falar isso?
E agora? O que eu falo? Ele tá sentado falando comigo. E eu aqui, calada. Ele amarrou o meu cadarço. Mas, que ação mais adolescente. Sua juvenil! Pense em algo, rápido.
- Qual o seu nome?
- Ainda não sei o seu.
- Do que eu tenho cara?
- De esquisita.
Emburrei! Mas, dessa vez, retruquei imediatamente:
- Engraçado, você tem cara de otário.
Dei de ombros, estava brava mesmo! Mas, espere. EEEEEEIIIIIIIIII, do que está rindo? Pare já com isso!
- Você é engraçada.
- E você é marrento.
Ou seria o contrário?
- Esquisita, vou indo. Te vejo por aí?
- Acho que sim. Dessa vez, não seremos mais desconhecidos.
Mas, o que é isso? Ele está se aproximando, encostando. Garoto, calma, o que vai fazer? Esse perfume.... mas, e.... o que você fez? O que ele fez? Ele me deu mesmo um beijo no rosto? Ele encostou no meu rosto? Por quê?
- Esse banco tem cheiro de tinta fresca, você sentiu?
Como sentiria algo? Só tem o seu perfume no meu nariz.
- Acho que não. Você não disse que já ia?
EU TÔ MESMO EXPULSANDO O CARA? BURRA.
- Tudo bem, moça esquisita. Te vejo por aí!
- Cuide-se, otário.
- Não qualquer otário.
- Como assim?
Ele rindo de novo. Que coisa mais linda, espontânea, feliz...
- Esquece. Amanhã poderíamos nos ver, não poderíamos?
- Acho que sim.
- Você é mesmo esquisita, garota.
- Não qualquer esquisita.
- É?
- Talvez.
E dessa vez, eu quem levantei, e me aproximei. E dei mesmo um beijo no rosto dele. Eu fiz isso, e dessa vez foi voluntário.
- Agora somos íntimos?
- Não. Agora nos conhecemos.
- Estamos. Ou iremos.
- O quê?
- Nos conhecer, oras. Ou, quem sabe. Reconhe-cer.
- Por que essa ênfase?
- Cer. Ser. Seja, sabe?
- Não.
- Tudo bem. Cuide-se, ok?
- Pode deixar, cuide de você por mim também.
(...)
- Ei, otário.
- Sim?
- Gostei dessa mancha na sua camisa.
- É tão pequeno, como reparou?
- Não sei. Eu já reparava em você.
Ele sorriu. Não riu, sorriu mesmo, sabe?
E foi embora. O cheiro de tinta fresca do banco começou a surgir. Mas, não estava fresca. Essa sensação... sim!
