domingo, 20 de janeiro de 2013

Tinta fresca.

Meu cadarço havia desamarrado. Eu não queria abaixar-me para arrumá-lo. O menino bonito estava passando. E hoje, ele estava com uma camisa branca. Mas sem aquela gola "V" cavada, sabe? Até nisso ele acertava. Tinha um detalhe no canto esquerdo, próximo ao peito. Queria tanto ver de perto. Mas, sabia que se andasse, cairia - meus pés não estavam firmes ultimamente.
Sentei num banquinho dali. Não lembro muito bem os detalhes da rua, se não, diria agora mesmo. Sei que o menino passava sempre por aquela rua, e era sempre esse horário: 16h30. Não com tanta precisão. Hoje mesmo, ele passou às 16h33. Certeza que é algum compromisso. Pensei que era academia, mas ele não iria malhar assim - tão arrumado. Não gosto de metrossexuais, e bom, gosto dele.
(...)
Oh não. Não. Nããããão! Ele está chegando. E agora? E agora? Ok, ele sentou no banco. Calma, respira.
- Boa tarde.
Apenas assenti. Não conseguia falar. E agora? Socorro, fale algo. Fale, fale, aproveite.
- Seu cadarço está desamarrado.
- É.
É? Você só fala isso? Ai, garota. Você me decepciona.
- Posso amarrá-los?
Arregalei os olhos. Ele está se abaixando, curvando-se. É ele? E está tão cheiroso. Ele amarrou mesmo. Qual o problema dele? Estou delirando? Estou com febre?
- Desculpa, é que estou abafado. Sufocado, sabe? Não falo com quem não conheço, mas...
- Veio por estar sufocado?
- Acho que sim.
- E falar comigo adiantaria?
- Acho que sim.
- Só sabe falar isso?
- Não.
E começou a rir. Consegui fazê-lo rir mesmo? E com essa camisa branca... acaba comigo.
- E então, qual o seu nome?
- Não falo com quem não conheço.
Agora, eu quem ri. Ele também, de novo. Achou graça na minha graça. Mas, a graça era mesmo dele. Ele quem não sabia.
- Está quente, não?
- Acho que sim.
- Só sabe falar isso?
E agora? O que eu falo? Ele tá sentado falando comigo. E eu aqui, calada. Ele amarrou o meu cadarço. Mas, que ação mais adolescente. Sua juvenil! Pense em algo, rápido.
- Qual o seu nome?
- Ainda não sei o seu.
- Do que eu tenho cara?
- De esquisita.
Emburrei! Mas, dessa vez, retruquei imediatamente:
- Engraçado, você tem cara de otário.
Dei de ombros, estava brava mesmo! Mas, espere. EEEEEEIIIIIIIIII, do que está rindo? Pare já com isso!
- Você é engraçada.
- E você é marrento.
Ou seria o contrário?
- Esquisita, vou indo. Te vejo por aí?
- Acho que sim. Dessa vez, não seremos mais desconhecidos.
Mas, o que é isso? Ele está se aproximando, encostando. Garoto, calma, o que vai fazer? Esse perfume.... mas, e.... o que você fez? O que ele fez? Ele me deu mesmo um beijo no rosto? Ele encostou no meu rosto? Por quê?
- Esse banco tem cheiro de tinta fresca, você sentiu?
Como sentiria algo? Só tem o seu perfume no meu nariz.
- Acho que não. Você não disse que já ia?
EU TÔ MESMO EXPULSANDO O CARA? BURRA.
- Tudo bem, moça esquisita. Te vejo por aí!
- Cuide-se, otário.
- Não qualquer otário.
- Como assim?
Ele rindo de novo. Que coisa mais linda, espontânea, feliz...
- Esquece. Amanhã poderíamos nos ver, não poderíamos?
- Acho que sim.
- Você é mesmo esquisita, garota.
- Não qualquer esquisita.
- É?
- Talvez.
E dessa vez, eu quem levantei, e me aproximei. E dei mesmo um beijo no rosto dele. Eu fiz isso, e dessa vez foi voluntário.
- Agora somos íntimos?
- Não. Agora nos conhecemos.
- Estamos. Ou iremos.
- O quê?
- Nos conhecer, oras. Ou, quem sabe. Reconhe-cer.
- Por que essa ênfase?
- Cer. Ser. Seja, sabe?
- Não.
- Tudo bem. Cuide-se, ok?
- Pode deixar, cuide de você por mim também.
(...)
- Ei, otário.
- Sim?
- Gostei dessa mancha na sua camisa.
- É tão pequeno, como reparou?
- Não sei. Eu já reparava em você.
Ele sorriu. Não riu, sorriu mesmo, sabe?
E foi embora. O cheiro de tinta fresca do banco começou a surgir. Mas, não estava fresca. Essa sensação... sim!