domingo, 19 de agosto de 2012

Enfim, é o fim.


Nesse fim de tarde ou início de noite (ainda não sei muito definir o horário das 18, confesso), eu penso que deveria falar de medo. E não necessariamente de medo, mas dos meus medos, sabe? Medo da morte, medo da perda. E fazendo essa junção, medo da morte de alguém que eu gosto. Porque se morre, quem perde sou eu.
Nunca tive medo de morrer. Engraçado, não é mesmo? Engraçado, esquisito, irônico e atípico. A sociedade vive para reclamar, reclama pra viver. Mas vive! As religiões são tão preponderantes, são tão fixas e estimulantes na sociedade como um todo, não pela propagação da fé, ou do amor em Cristo. E sim pelo medo da morte. ÉÉÉÉÉ! As pessoas têm medo de morrer. E não só da morte, mas das consequências da morte: céu e inferno, purgatório, sofrimento, tridente, chamas, reavivamento, paraíso. Essa luta incessante pela divisão de águas (sou péssima em metáforas, e nunca sei se as uso de forma correta). Bom, vocês entenderam. É a busca pela vida, desapego da morte. Se é que posso chamar de desapego. Não sei.
Falar de morte até assusta. Eu mesma, agora, estou me arrepiando um pouco, porque incrivelmente comum, meus pensamentos vão além da minha escrita e aquém da minha possibilidade de explicitá-los em um simples texto. E como simples, creio eu, não posso esbanjar palavras e nem criar polêmicas. Porque viver é difícil, mas a morte é tão mais fácil. Viver é complicado, machuca, é penoso. Morrer é tão objetivo, real, adequado. Morrer é adequado! Mas, viver também é. Porque viver é uma dádiva. Não que a morte não seja, só não é tão reconhecida.
Afinal de contas, é fácil falarmos sobre a importância de outrem em sua morte. É fácil dizermos que amamos alguém e que sentiremos falta desse alguém quando esse alguém morre. Mas, por que nos assusta tanto falar isso em vida? Porque sabemos que a morte é simples, que a morte é direta, e tememos por isso. Acho até que intrínseca (e ironicamente) sentimos inveja dos mortos! E não se assuste com isso que eu falei, apenas acompanhe meu momento de devaneio. Sentimos inveja dos mortos porque eles já passaram por suas possíveis turbulências e agora descansam. Ou, o vulgo: descansam em paz.
Pra gente é tudo tão angustiante, difícil, polêmico que muitas vezes precisamos apenas de paz. O problema dessa busca incessante pela paz é que acabamos descontando isso em quem não deveria receber: nosso irmão – olha eu apelando pro clichê! Tudo bem, mudarei a expressão, acabamos por descontar essa revolta na pessoa do nosso lado. Aí, começamos com aquela história de: “fulano me irrita”. “Cicrano é falso”. “Beltrano é um porre e forçado”. “Você viu o que ela fez? Que ridícula, finge ser o que não é”. “Só faço rir como ele consegue me surpreender sendo tão trouxa, deveria ser menos imbecil”. É como eu disse, vivemos pra reclamar. Mas, reclamamos dos outros! Porque eu? “Eu sou a dona da verdade”, “não é que eu não tenha defeitos, mas eu não sou assim”, “Fala sério, sei que eu não sou flor que se cheire, mas duvido muito que eu seja assim, você sabe que eu não sou”. E o mais engraçado: tiramos o nosso da reta e comprometemos um amigo, e ai dele se falar que eu (ou você) tem defeito!
Somos estranhamente esquisitos, que muitas vezes levantamos nossos defeitos, mas se alguém comenta é motivo de briga. Porque o defeito do outro é sempre pior que o nosso. E, talvez, o outro apenas tenha o mesmo defeito que o nosso, mas somos tão cegos e hipócritas que sentimos dificuldade até mesmo de reconhecer nossos erros. Acentuamos com tanta clareza as falhas de alguém, que perdemos o foco do que realmente é foco: eu.  Porque hoje, o dia é meu. Sou eu. É D(eu)s. Mas, qual foi a causa do começo de tudo isso, hein?
Ahhhh, a morte! A morte pela que eu, você, ele, ela e até aquele alguém que comentamos mais acima morre de medo. Porque morrer é simples, e nós gostamos de complicações. E eu poderia, como de praxe, sentar ao lado de Zé e perguntar o que ele acha, mas eu conheço Zé! Sei bem como ele pensa – ele tem sido meu psicólogo sem diploma, e pelo que sei de Zé, ele só me olharia (com aquelas bermudas largadas que ele costuma usar, e aquela camisa branca – Zé é cheio delas – com sua sandália surrada de barro), e falaria: É, menina. Já dizia em um filme muito bom e conhecido que basta estar vivo para morrer.
Porque Zé é simples, e como eu, Zé não teme a morte. Mas, diferentemente de mim, Zé é realista com a vida. E reconhece que somos errados, que somos complicados, que somos hipócritas, que somos egoístas, que somos donos da verdade, que temos um rei na barriga. E aí, você poderia me indagar: mas, por que você enaltece tanto Zé? Por que você fala assim dele, sendo que ele se inclui no “nós”? Bom, aí então, eu apenas te responderia: Zé não tem medo, Zé é sensato, Zé é simples. Assim como a morte. Adequado, preciso, verdadeiro.
E, agora, não sei se temo mais a morte. Porque, como Zé me parafraseou: basta estar vivo para morrer. Ao menos, verei que outrem alcançou a busca incessante da humanidade: o descansar em paz. E assim, de um a um, pararíamos de culpar fulano, cicrano ou beltrano por nossos próprios erros e fraquezas. E aprenderíamos, talvez, a reconhecer as possíveis qualidades de alguém, ao invés de simplesmente incriminá-los pelos seus (sobretudo, nossos) próprios erros.
Mas, chega de devaneios, hoje, acho que atingi meu ápice. Ainda estamos no fim de tarde, ou início de noite – maldita 18h que me confunde! – e, eu irei tomar um banho. Esquentar a cabeça, sabe? Tentar “dar uma” de Zé. Ser mais simples, mais direto, mais adequado. Menos complicada. Lavar a cabeça, sentir mais a água, ao invés de só problema. Pensar na qualidade e no encanto de alguém, sem julgá-lo pelos seus atos.
Refletindo que, a partir daí, eu sozinha não mudo o mundo. Mas, quem sabe o m(eu) mundo tome um rumo!? Já são quase 19h, agora eu sei que estamos em início de noite. Então, tenha sua noite como boa também. E não! Eu não te julgarei e nem me utilizarei de palavras ofensivas. Porque “bom dia” não faz mal, “como você está?” é uma pergunta rara e que chama atenção hoje em dia, e que elogios e preocupação tornaram-se escassos na humanidade. E como humanos que somos, precisamos mais disso, se é que você me entende. Então, boa noite. E lembre-se: ao apontar um dedo pra alguém, note que outros três dedos, dessa mão, voltam para ti. Julgue menos, viva mais. Mas viva! E não toma a morte. Quando ela chegar, será simples. E, meu caro, você e eu somos tudo, menos simples.
Dê uma flor, coma com alguém (e se convir, coma alguém também, metaforicamente, é claro), abrace! Todos esses clichês necessários da vida. E, pra não ficar maçante e antipático, como meus devaneios do dia-a-dia, sente-se agora para ver TV. Note o caos, seja o caos. Contradiga, mas não humilhe e nem se sinta superior. Não se torne. Seu D(eus) já busca isso, faça a diferença para si. Porque assim, quem sabe, você faça isso por mim também.