Meu pai é hipertenso. Desde nova, eu como comida com pouco sal por causa dele. Não é à toa que tenho pressão baixa. Mas, ele nunca se cuidou, sabe? Sempre foi largado. Comia gordura, alimentos oleosos, e afins. Sempre relapso com a saúde. Uma certa vez, quando eu estava na Bahia em férias tardias da UnB (depois de longo período de greve), em casa, tranquilíssima com meus pais em uma manhã do dia 17/09/2010, levantei cedo, diferentemente do que acontecia. Acordei 09h30. Era uma sexta-feira, lembro-me como se fosse hoje. No dia anterior, meu pai havia passado mal com pressão altíssima, foi trabalhar, mas voltara cedo, exatamente por isso. Já me preocupei desde então. E acordei cedo, ou melhor, levantei-me cedo exatamente por isso - não conseguira dormir direito na noite anterior de preocupação. Quando desci as escadas, fui ao seu encontro na sala. Ele estava vendo TV, e eu disse a ele: tá melhor? E ele apenas assentiu com a cabeça. Em seguida, meu irmão apareceu dizendo: Pai, daqui a pouco vou tirar sua graça e colocar um som aí, porque tô lavando o carro.
E ele: não mesmo, vou ver meu dvd do David Gilmour (meu pai é apaixonado por Pink Floyd, e tem vários dvds da banda, além do David e do Roger separadamente). Aí, eu me intrometi dizendo: Negativo, nenhum dos dois vai ver nada aqui. Eu vou ver um filme que vai passar hoje, que eu nunca vi, e tenho vontade de ver (Xeque Mate, tanto é, que toda vez que vejo esse filme, lembro do acontecimento). Aí meu pai balançou com a cabeça com cara de "tsc, Carol". E eu acrescentei: e você vai ver comigo. Ele acabou por não dizer nada, no final das contas, meu pai acaba fazendo tudo o que eu quero. Em seguida, chamei-o para ir à cozinha comigo, para eu tomar café e me fazer companhia (como de praxe). Ao chegarmos lá, enquanto eu pegava minha caneca e o Leite Ninho, ele sentado à messa, respirou tão forte, tão ofegante, que eu olhei pra ele. Ele estava vermelho. Imediatamente, minha mãe chamou meu irmão, e ambos foram ao hospital. Desisti logo de tomar café, esperando os dois voltarem. Ao voltarem, meu irmão disse que tinham passado na farmácia, e a pressão dele estava altíssima.
Não lembro ao certo quanto, mas creio que era 25.19, algo do tipo. E que meu pai deveria, de fato, ir ao hospital. Como recomendado. Mas, filha de peixe, peixinha é! Meu pai é teimoso, deveras teimoso, e disse que estava bem. Meu irmão e eu ainda perguntamos para ratificar, e ele disse que sim. Fiquei tão desnorteada na hora, que nem ânimo de comer mais, eu tive. Apenas disse: já volto, tá? Vou efetivar minha matrícula desse semestre (matrícula web da UnB sucks! rs) e volto para vermos o filme. Ele não disse, mas eu subi. Assim que confirmei minha matrícula, ouvi minha mãe gritando "Carolliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiina!". Bom, sobre essa semana, não digo nada com propriedade. O choque foi tão grande, que quando eu vi, já tinha saído do segundo e estava no primeiro andar. Algumas pessoas, ao verem certas cenas, mostram-se ágeis, úteis, e socorrem. Outras se desesperam, começam a chorar, a gritar. E eu? Bom, eu fui da "classe" dos estagnados. Não tive reação alguma! Apenas vi o meu pai jogado/deitado na mesa da cozinha. Morto, praticamente! Minha mãe percebeu meu olhar parado.
Minha atitude parada. E me deu um sacode: vai chamar seu irmão agora! E eu fui correndo, quando abri a porta da garagem, nem precisei dizer nada, meu irmão viu a minha expressão. Entrou correndo. Resultado: vi o meu pai saindo carregado de casa pelo meu irmão e pela minha mãe. E ao chegar do lado de fora, ajudados por um de meus vizinhos. Vi meu pai entrar no carro, nesse estado. Vermelho, com a língua pra fora, sem andar, sem falar. Com os olhos virados. Foi isso que eu vi, e apenas isso. E, sabe aqueles barulhinhos de carro que arrasta, assim como em filme? Então. Lembro desse som perfeitamente nítido até hoje. Depois que o carro dobrou a esquina com toda a velocidade, com meu pai, minha mãe e meu irmão neles, eu entrei e debrucei-me na escada. Chorando de cabeça baixa. E chorava. Chorava, chorava, chorava. E quando penso que não, chorava mais. A situação em si não tivera caído, mas eu sabia que meu não estava bem. Não sei quanto tempo fiquei ali debruçada chorando, mas sei que uma tia minha chegou em seguida dizendo: Carol, já liguei pra uma de suas amigas.
Ela disse que ligaria para os demais, para ficarem comigo, né? Duas amigas nem foram pra faculdade. Uma delas, estava na faculdade e voltou assim que soube. E os meninos, de modo geral - como sempre - ficaram comigo. Passei o dia inteiro com eles em casa, deitada no sofá chorando. E só chorei. Não comi na-da o dia inteiro. Nesse dia, eu descobri que uma pessoa consegue passar um dia sem comer. E mais, sabe o que mais me deixava desesperada? Eu ligar no celular do meu irmão e da minha mãe e nenhum dos dois me atenderem! Uma hora, minha mãe até voltou em casa para pegar roupas e ir direto pro hospital (um amigo dela estava esperando-a arrumar suas coisas para voltar para o hospital). E eu perguntando: e o meu pai? E o meu pai? E ela? Não dizia nada, apenas: calma, eu logo volto. Mas, porra, não era isso que eu queria saber! Queria saber só como ele estava, sabe? Se respirava, se falava, se estava melhor. Só isso. Mas não obtive notícias. Vi o meu pai sair de casa naquele estado, e fiquei até às 22h sem notícia alguma. Detalhe, essa situação occoreu por volta das 10h.
Aí, uma das minhas amigas começou a ficar preocupada, né? Porque eu fiquei o dia inteiro sem comer absolutamente nada. Aí ligou pro meu irmão. Dessa vez, ele atendeu. E ela disse: Jr, que horas você vem? Porque sua irmã é criança o suficiente pra não querer comer e nem se cuidar. E ele falou algo com ela, que eu não sei. Mas, logo em seguida, ela passou o telefone pra mim. E ele disse: tô chegando em casa, e você vai comer, porque de doente agora, já basta meu pai. E eu chorando disse: ele tá melhor? E o meu irmão: tá. Quando eu chegar em casa, te conto tudo. (Tô chorando tanto agora, só de lembrar de tudo isso, você não tem ideia) Enfim, quando meu irmão chegou em casa, eu fiquei tão angustiada, que chorei mais. Minha amiga que estava comigo ainda desde cedo, foi embora em seguida, já estava tarde. Aí subimos. Lá em casa (é algo até engraçado), cada um se expressa de um jeito quando fica nervoso. Meu irmão, por exemplo, tem crise de tosse. Não sabia se ele tossia mais ou falava. No final das contas, ele disse +- que meu pai estava em um quadro mais estável.
E que ele teve (waiting for it) quatro infartos. Isso mesmo que você leu, quatro infartos. Eu chorava tanto, tanto. Como uma pessoa teve quatro infartos? (Se você quiser, te falo depois dos infartos) Anyway, sabe o que foi "bom" (se é que posso chamar assim) com tudo isso? A aproximação que meu irmão e eu tivemos. Meu irmão me esperou tomar banho, desceu comigo, e fez lanche pra gente. Comemos, conversamos e fomos dormir. Dormir não, porque ninguém tinha cabeça pra dormir nesse dia. Mas, deitamos. E no dia seguinte, eu sabia que poderia visitar meu pai no hospital. No caminho de ida, meu irmão me fez toda uma preparação psicológica. Comentou sobre o fato do médico ter dito que meu pai passou por um quadro complicado, e que estava em repouso e que não poderia se estressar, se irritar, se preocupar e nem se emocionar. E no meu caso: se emocionar. Agora, imagine: canceriana e emotiva, como eu, como não se emocionar? Mas, ok. Fui me preparando, fui abstraindo aquilo, e pedindo a Deus no meio do caminho: Senhor, dai-me forças, não me deixe chorar.
(E eu, agora, chorando igual criança digitando isso) Quando eu entrei no quarto, e vi o meu pai de olho aberto. Ca-ra-lho! Eu não aguentei, saí do quarto correndo, e meu irmão veio atrás. Eu estava aos prontos. Meu irmão, de gracinha como sempre, deu um tapa de leve no meu ombro e disse: vira homem, rapaz! E me esperou um pouco, e eu acalmei. Entrei novamente. Vi meu pai. Foi o maior presente que eu já ganhei até hoje. Meu pai de olho aberto de novo. Sabe o que é isso? Sabe o que é ver o amor da sua vida vivo? De olhinho aberto? Foi uma dádiva. Ainda é! Eu só consegui encostar e dar um beijo na testa dele. E disse com a voz falhada: oi, pai. E ele piscou o olho pra mim. Lindo! Como sempre lindo! Se fiquei muito lá, foram 5 minutos. Não conseguia não chorar, e logo em seguida, saí do quarto. Minha mãe foi atrás de mim em seguida, e disse: você sabe que não pode mais voltar amanhã, né? E eu disse: não, mãe, desculpa. Eu juro que amanhã não choro, tá? Juro mesmo. É que hoje, eu não segurei. E ela disse: não, Carol, é porque quando seu pai te viu, ele chorou. E eu: chorou?
E ela: chorou. Comigo e com Júnior não. E eu: tadinho do meu papai. E ok, não pude visitá-lo. Fiquei com o coração na mão, sabe? Não poderia ver meu pai. Fora que, no mesmo dia, à noite, quando liguei para saber de notícias dele, minha mãe disse que ela e minha mãe alternariam para dormirem no hospital. E eu me prontifiquei, claro, para ajudá-los. E minha mãe me dissera que meu pai não queria que eu fosse, porque sabia que eu era frágil e não daria conta, fora que ele não estava preparado para me ver. CARA, COMO ASSIM? Ele quem tinha passado por um problemão, e a frágil era eu? Como? Quando? Onde? Pqp, por que ele é perfeito? Não entendo. Mas, enfim, não fui. Nesse dia, sábado à noite, dia 18/09/2010, passei o dia inteiro para os meus amigos. E esqueci de dizer: lembro que fui na rua à tarde para comprar um pijama bonito pra ele usar no hospital e dar de presente. Ficou bonito nele, inclusive. Assim como tudo que ele usa e faz. Passei o dia inteiro com cólica. Minha menstruação tinha ido embora uns 4 dias antes, e voltou depois com isso. Mexeu pra caramba com meu psicológico.
Nesse mesmo dia, à noite, os meninos estavam comigo jogando banco imobiliário, depois dominó. Fizeram mil gracinhas pra eu rir. Confesso que até ria, mas instantaneamente, piorava e chorava. Chorava de alegria por ver meu pai vivo, mas pela cena em si. Fora a preocupação, né? Meu pai estava internado ainda. Resultado: tomei muitos remédios para a cólica passar, e na-da. Pelo contrário: piorava. Nesse dia, eu desmaiei duas vezes seguidas, meus amigos já tinham ido embora. Meu irmão quem me socorrou. Meu pai, na segunda, fez um cateterismo, e ficou mais uns dias no hospital. Quando ele voltou pra casa, foi alegria. Eu disse pra ele que ele tinha renascido.
Já tive muitos momentos na minha vida. Alegres, tristes. Mas, digo no sentido de intensidade, consegue me entender? E nenhum deles é comparado a esse. Meu pai compôs o pior e o melhor dia da minha vida.

Carolzinha, eu não sei nem o que comentar depois de ter lido esse texto. Fiquei emocionada. E ao mesmo tempo triste. E com pena também. Explico: emocionada pela forma como descreveu esse seu momento tão particular; triste por praticamente ter entrado na cena do acontecido e perceber esses detalhes, saber o que acontece com as pessoas, o desespero da família, enfim... É realmente triste. E pena de mim. Eu não tive esse grande amor na minha vida :( Mas, ok... Cada um nasceu para algo nessa vida e com certeza eu não nasci para ter amor de pai. Ainda assim, consegui achar lindo - pela primeira vez LINDO - o relacionamento entre pai e filha. Assim, intensamente, é pela primeira vez. Parabéns pelo papai e que ele esteja muito melhor hoje, irmã.
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