quarta-feira, 18 de julho de 2012

Abacates maduros.

Li um dia desses uma crônica do meu chefe. Com uma linguagem bem formal. Aguçada. Pontuada. Detalhada. Mas com uma história de simplicidade singular. Aquele tipo de enredo que você olha e desde cedo pensa: isso me surpreenderá. Ou, surpreender-me-á (atente-se à escrita formal, menina). Fiquei pensando em D. Maria. É, a velhinha da crônica do meu chefe. Ela me comoveu. Queria apenas uns abacates - da promessa que meu chefe fizera a ela. Sabendo ele que não eram os abacates que tinham valor, mas sim, a recordação (que ele não tivera, inclusive) de enviar-lhe alguns "bocados" para suprir, talvez, sua necessidade - diziam que naquela época, abacate era como "ouro". Tolinhos. Vê se o material é tão valioso quanto a lembrança!? E quando não se lembra? Se sente. Sente-se. Mas, para isso, eu deveria me sentar. Sentar ou sentir? Sinto sentada. Porque falar de sentimento, meu caro, levaria horas. Alguém como eu falando de outrem é sinônimo de detalhes. Meu menino é de detalhes. Sabe aquela vitória-régia jogada em um lago qualquer, com musgos e falta de limpeza constante? Mas que apresenta uma violeta bem perto, decerto, que se destaca? Ou, quem sabe, aquela gotícula que escorre pela folha bem verdinha no fim de uma chuva? E, quem sabe talvez, aquela pilhas de cd's organizados em ordem alfabética mas que, por descuido do responsável, um único se apresenta torto? Então, o meu menino é desse jeito. Ele tem uma leveza em sua fala. Um jeito manso de me conduzir. Lembro de Chico cantando "(...) eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz". Como eu queria cantar isso para o meu menino. Menino. Meu. É, meu!
[...]
Mas, de que diabos eu estava falando mesmo? Sim, de D. Maria. Ao, menos, deveria ser dela. Meu menino não queria abacates - e se quisesse, eu não saberia. Ele queria confirmações. Certezas. Disciplinar-se em línguas. Verde, branco e vermelho. Verde, amarelo, azul e branco. Mas que danada de mistura é essa? Não sei. Ele é assim. Quem sabe até ele quisesse apenas tomar posse do que fora dele. E que continuasse sendo, mas que por alguma razão, ele pensou que houvesse se esvaído. Imagine só que (pausa - estou em risos contidos) ele tivesse um leve relapso ao dizer que alguém fosse dele. E fosse! Ou melhor, e é. Presente, por favor. Tanto quanto a sintaxe quanto o literal. O que é seu não há mudança. Mesmo que haja um casamento contra sua vontade.
E ao se tratar de casamentos, já não lembro mais de D. Maria. Lembro de mim. E sempre me vem um vestido tomara-que-caia que realce meus seios, um salto fino de brilho único, e uma maquiagem radiante. Estaria eu, talvez, com um buquê mais lindo ainda. Não tão lindo quanto quem me esperasse do outro lado, lá no altar. Buquê me lembrou janela, janela lembrou meu menino.
Ele não me olha na janela. Isso soa um tanto quanto esquisito. Eu que estou a olhar, agora, lá fora. A janela em seu formado bonito, com cores acinzentadas (gosto de cinza, inclusive), e seus traços que não permitem um acesso livre. Estou bloqueada. Presa em minha própria liberdade!
E não posso mesmo ser livre. Ele me pegou! Ele nem sabe a representação contrária de livre e preso que causa em mim, mas causa. Sempre causou. Desde seu início com jeito esquisito e autista de ser. Sua implicância. Suas saídas à escola de noite. Noite. E eu toco, e eu sinto. E eu disse que sentaria, não é? E me toco outra vez. Porque queria senti-lo, tocá-lo. Tê-lo.
Ai, meu menino. Mal sabia você que o tempo inteiro, não era o meu menino. Eu quem era a menina dele.

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